Terça-feira

PELADA

Voltando da pelada de quarta à noite na praia, ali na altura da Figueiredo Magalhães, tenta tirar toda a areia do corpo. Inútil, quando justamente é nas suas costas onde ficou mais sujo. Pensa que pouco importa, no sábado vai levar o carro para lavar mesmo, passa o aspirador portátil quando chegar em casa só para poder ir trabalhar amanhã sem cheiro de areia no corpo. Caminha em direção ao carro, parado perto da Santa Clara, quase em frente aquele restaurante de turista que atende mal mas vem com pratos bem fartos, ideal para se dividir com mais dois, coisa que quase não acontece com ele, normalmente está sozinho ou só com os amigos que só fazem beber. Então voltava para o carro, ia já enfiando a chave na porta quando o guardador surge do nada cobrando a estadia. Era manco, usava muletas e tinha o rosto cansado mais da vida que da própria idade. Esperto que só cobrava aquilo que o pobre incauto já havia pago.
- O café! O café! Tomei conta aí.
- Amigo, vai me desculpar mas tu vai ter que cobrar do teu parceiro aí mais cedo.
- Dá uma força aí, chefia?
- Fala com teu parceiro, já acertei mais cedo.
- Pô, aí enfraquece...
- Comer minha mãe todo mundo quer, dar pro meu pai nem fodendo!
E sai calmamente sem remorso por não ter alimentado a mendigagem alheia, mesmo de um pobre mas esperto manco.

Quarta-feira

PAREDES FINAS DEMAIS



Patroa foi viajar com as crianças para o litoral, aproveitar este período de descanso da Justiça para relaxar, muito justo por sinal. Mais justo que isso foi a minha sogra ter ido junto, ficando somente eu e o gato, que a maioria aqui conhece pelo bichano gordo que divide o sofá da sala.

A empregada ficou, bem, pelo menos eu a vi pela manhã e quando cheguei em casa encontrei um monte de roupa no varal e comida no fogão, uma puta macarronada com tudo a que tem direito. E foi só. Antes isso que chegar em casa e encontrá-la com o safado do porteiro, outro que não vale nada e enche a porra do meu saco toda vez que nosso time vai jogar.

Ao contrário dos outros dias, consigo sair cedo do trabalho, sentindo até um sentimento de culpa por não conseguir fazer isso quando todos estão em casa. Sabendo que ia dividir a cama com a minha mão e o controle remoto peguei uns dois filmes na locadora, mas a julgar pela hora, com sorte chego na metade do primeiro.

Cerveja que tinha na geladeira acabou. O gato fica me rodeando mas não dou nem papo, porque comida tem, caminha quentinha só com a mamãe dele que está tomando uma puta de uma chuva na praia e ainda por cima ficou com um quarto com goteira. Não poderia ser pior. Ah, sim. Poderia,
ainda é terça, só volta sexta. Quer apostar quanto que só porque é o final de semana do de peladas da minha turma além do sol sair vai fazer um calor infernal?

A macarronada já era, aliás, estou no segundo prato. Nada pra fazer, não vou conseguir pagar minhas contas agora mesmo, deixo esta humilde mensagem com algumas constatações:

  • Nada melhor do que cagar com a porta aberta, vento corrente e sem pressa;
  • Meu apartamento produz muito eco, dá para ouvir o chuveiro pingando do corredor;
  • Preciso abaixar o som dos meus jogos, principalmente depois de uma da manhã;
  • Devia ter pegado um filme pornô, televisão aberta não acontece nem um peitinho;
  • Lavar a louça para que? A empregada volta, não volta!??!?
  • Ficar de cuecas na sala é o que há!
  • Não tem ninguém para comprar coca cola para mim;
  • O corredor é ótimo para andar de skate;
  • Dá o maior eco quando se joga bombinha pela janela que dá para o estacionamento;
  • Interfone toca todo dia mas não atendo;
  • Alguém deixou a geladeira aberta, a única lata de cerveja ficou choca;
  • Ninguém fica online no dia 2 de janeiro;
  • Qualquer apartamento da Barata Ribeiro sofre de paredes finas.
Amanhã tem mais, vou dormir
porque ouvi sirenes na rua
e alguém batendo na porta.

Tomara que não seja comigo!